terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A quem pertence Jerusalém?

Jerusalém é uma das cidades mais antigas do mundo. Registros apontam sua origem em torno do milênio IV a.C. É considerada uma cidade santa para os judeus, cristãos e muçulmanos e hospeda os principais pontos religiosos, entre eles a esplanada das mesquitas, o muro das lamentações, o santo sepulcro, a cúpula da rocha e a mesquita de Al-Aqsa.

No curso da história, Jerusalém foi destruída duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes, e capturada e recapturada 44 vezes. (Fonte: wikipédia).

Qual a razão de tanta disputa? Seriam razões religiosas? Vejamos alguns pontos:

1. Jerusalém é sagrada para os judeus desde que o Rei David a proclamou como sua capital no 10º século a.C.
2. O cristianismo reverencia Jerusalém não apenas pela história do Antigo Testamento mas também por sua significância na vida de Jesus.
3. Para os muçulmanos Jerusalém é considerada a terceira cidade sagrada do Islamismo dada a Noite de Ascensão de Mohamed (c. 620 d.C.).

Mas e antes da proclamação de David? Não existiam habitantes em Jerusalém? A resposta é: sim, haviam habitantes em Jerusalém que não eram nem judeus, nem cristãos e nem muçulmanos.

Por isso, partindo do princípio de que uma terra somente pode ser evocada como sua a partir do momento de sua descoberta, não se pode dizer ou determinar que Jerusalém e toda a Palestina sejam dos judeus.

Partindo desse entendimento ‘razões religiosas’ estão descartadas. Se assim fosse, cristãos também estariam na disputa pela reivindicação da intitulada ‘Terra Santa’. Além disso, os palestinos não estão lutando por suas terras considerando a religiosidade. Os israelitas, por outro lado, almejam divisas maiores, que vão além da religiosidade.

João Marco Domingues[1] utilizando datas aproximadas, ordenou a cronologia de Jerusalém, conforme é demonstrado adiante:

2000 a.C. – Período Patriarcal (Abraão, Isaac, Jacob).
1050-930 a.C. – Reino unificado

1004 a.C. – David funda Jerusalém, fazendo dela a Capital do Reino
930-586 a.C. – Reino de Judá
960 a.C. – O Rei Salomão inicia a construção do 1º Templo
952 a.C. – Consagração do 1º Templo
586 a.C. – Nabucodonosor invade Jerusalém e destrói o 1º Templo
539-332 a.C. – Domínio Persa
520 a 515 a.C. – Reconstrução do 2º Templo
332-167 a.C. – Domínio Grego
168 a.C. – O domínio opressor grego atinge o seu cume
63 a.C. - Domínio Romano
63 a.C. – Pompeu destrói Jerusalém
37 a.C. – Jerusalém é destruída parcialmente por Herodes
20 a.C. a 63 d.C. – Herodes reconstrói o 2º Templo
29-32 – Vida pública de Jesus Cristo
70 – O Templo é definitivamente destruído pelo Imperador Tito
324 – Domínio Bizantino
335 – Término da construção do Santo Sepulcro
614 – Persas conquistam Jerusalém. A Santa Cruz é saqueada
628 – Os bizantinos reconquistam a cidade, a Santa Cruz é recuperada e entronizada em Jerusalém
639 – Domínio Muçulmano
639 – Jerusalém é dominada pelos árabes liderados por Omar
692 – Término da construção da Mesquita de Omar (Cúpula do Rochedo)
1010 – O califa Al-Hakim destrói o Santo Sepulcro
1099 – Domínio Cristão
1099 – Os cruzados, convocados pelo Papa Urbano II em 1095, chegam a Jerusalém e reconquistam a cidade
1244 – Domínio Mongol
1244 – Jerusalém é conquistada e saqueada pelos mongóis
1516 – Domínio Otomano
1516 – Jerusalém é conquistada pelos otomanos
1840 – Reocupação turca
1917 – Domínio Britânico
1920 – É atribuído o mandato da Palestina ao Reino Unido
1947 – Resolução das Nações Unidas a fim de criar um Estado Judeu e Árabe na Palestina
1948 – Reino Unido retira-se da Palestina. O país é invadido por Estados vizinhos. É declarado o Estado de Israel a 14 de Maio
1948 – Domínio Israelita
1949 – Jerusalém é dividida entre dois países; Jerusalém é proclamada capital de Israel; Jerusalém Oriental fica sob domínio da Jordânia
1967 – Israel ocupa a Velha Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias
1987 – Início da Intifada, revolta palestiniana nos territórios ocupados por Israel, primeiro em Gaza e depois na Cisjordânia
2000 – O dirigente do Likud, Ariel Sharon, visita a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, acompanhado de um apertado corpo de guarda-costas. Surgem violentas manifestações que dão origem à 2ª Intifada.

De acordo com a cronologia, Jerusalém sofreu os mais variados domínios: persa, grego, romano, bizantino, muçulmano, cristão, mongol, otomano, britânico e agora israelita.

Por isso pergunto: A quem pertence Jerusalém?

Respondo: A todos os povos. Não apenas aos judeus, cristãos ou muçulmanos. Todos têm direito. Acho completamente infundada a decisão da ONU de estabelecer um Estado judeu (Israel) sobre uma cidade de importância religiosa para pessoas do mundo todo.

A quem pertence a Palestina?
Legalmente, historicamente e humanitariamente aos palestinos, que vivem na região há muito anos, sofrendo todos os tipos de ataques e domínios.

[1] Mestre em Relações Internacionais pelo Departamento de Ciência Política da Universidade de Paris I - Sorbonne. Doutorando em Ciência Política da Universidade de Paris I - Sorbonne. Investigador no Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança - IPRIS.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O muro da vergonha!


A notícia não é nova. Desde Dezembro do ano passado (2009) o governo egípcio anunciou a construção de um muro de 10 km na fronteira com a Faixa de Gaza. O intuito, segundo o governo egípcio, é frear o ‘contrabando’ de alimentos, bens e armamento ao território sob bloqueio israelense. Além da longa extensão, o muro entrará no solo cerca de 20 ou 30 metros e de acordo com especialistas será impossível realizar qualquer tipo de corte ou fundição. Apesar de o muro ser construído com enormes placas o governo egípcio acredita que esta nova condição não irá finalizar totalmente as atividades de ‘contrabando’.

O cerco: A outra fronteira de Gaza, com Israel, conta com uma ultravigiada barreira, enquanto o espaço marítimo do território palestino é controlado por navios de guerra israelenses. (Fonte: g1.com).

Pois bem, o povo palestino (em Gaza) está morrendo de fome. As pessoas não sabem, mas essa é a realidade. Israel fechou todas as saídas e sequer comida entra. Daí eu pergunto: o que Israel quer? O que Gaza, ou os palestinos daquele lugar podem fazer contra eles? Um povo massacrado que ainda tenta se reerguer.

Acho importante lembrar que o pretexto que motivou Israel a atacar Gaza no final de 2008 foram os ataques que o Hamas estaria mantendo contra um vilarejo na fronteira com Israel. Alguém sabe dizer quantos israelenses morreram? Ou, alguém poderia me dizer se isso é realmente motivo suficiente para se iniciar uma guerra covarde, onde mais de 1.400 palestinos morreram, transformando Gaza, hoje, na maior prisão ao céu aberto do mundo?

Sinceramente, o pior de tudo é ver os países árabes omissos, ou pior que isso é ver o Egito, como um país árabe-islâmico contribuir com o regime imperialista de Israel. Por isso, cabe aqui dizer que o problema é mais complexo. Egito não detém o controle de sua fronteira e sim Israel. Israel por sua vez recebe o apoio dos Estados Unidos na construção do dito muro solidificando o cerco e concretizando a prisão dos palestinos.





Karen Abu Zeid, Comissário Geral da Agência da ONU para os Refugiados declarou: “O muro de aço que o Egito está construindo na fronteira com a Faixa de Gaza é produzido e financiado pelos Estados Unidos e faz parte de um acordo sigiloso feito durante a precedente administração americana”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CARTA ABERTA, ASSINADA PELO PCB, À REPRESENTAÇÃO DO EGITO NO RIO DE JANEIRO

Ainda a respeito da Marcha para Gaza, posto logo abaixo uma carta assinada pelo Partido Comunista Brasileiro - PCB, remetida ao Consulado Egípcio no Rio de Janeiro e endereçada para o Presidente do Egito Hosni Mubarack.

Solidariedade ao Povo Palestino

Excelentíssimo Senhor Presidente da República Árabe do Egito Hosni Mubarack.
Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2010.


Nós, brasileiros, signatários desta carta, abaixo assinados, lideranças políticas, sindicais, intelectuais, parlamentares, partidos políticos e entidades representativas de diversos setores da sociedade civil brasileira, estamos profundamente chocados e apreensivos com o drama vivido pelos nossos irmãos que vivem nos territórios ocupados da Palestina, especialmente em Gaza de onde nos chegam diariamente as mais terríveis notícias sobre o aprofundamento da desumana agressão do Estado de Israel sobre uma população desprotegida, profundamente ferida, cujas vidas vem sendo usurpadas dia após dia com a imposição de um bloqueio cruel que, na prática, os impede de retomarem suas vidas após os bombardeios levado a cabo pelo exército israelense no final de 2008 e início de 2009.

Para nós, é incompreensível que um país como o Egito que, em um passado recente, defendeu este povo espoliado com tanta bravura e heroísmo se mostre agora indiferente ao amargo destino que está sendo trilhado pelos seus irmãos palestinos. Uma situação tão dramática que se transformou na principal cena do mundo. Não há, Senhor presidente, entre os povos conscientes de todos os países, uma pessoa que não expresse sua preocupação com os palestinos e seu mais veemente repúdio ao Estado de Israel que vem praticando um verdadeiro genocídio em uma população indefesa. Um repúdio que acabará por se estender para todos os governos apoiadores e cúmplices do Apartheid que está sendo praticado sobre o povo árabe palestino por um Estado racista, assim definido pela própria ONU que, em sua resolução 5.151 G (XXVIII), de 14 de dezembro de 1973, condenou, entre outras coisas, a aliança entre o racismo sul-africano e o sionismo, declarando também o sionismo como uma forma de racismo e discriminação racial, no texto aprovado em 10/11/95.

Não é necessário descrever todos os horrores praticados pelas forças armadas israelense durante os 21 dias de ininterrupto massacre, com a utilização de armas proibidas pelas Leis Internacionais, cometendo os mais hediondos crimes de guerra e crimes contra a humanidade, como ficou constatado no relatório do juiz sul-africano, Richard Goldstone, posteriormente endossado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, porque esses fatos são conhecidos pela opinião pública de todo o planeta.

Há que se observar que ao se defenderem com seus próprios corpos, utilizando objetos que lhes vem à mão como paus e pedras e com rudimentares armamentos, o povo palestino está defendendo os valores fundamentais da humanidade, está defendendo o mais elementar dos direitos, que é a vida. Negar-lhes socorro, equivale a endossar a aniquilação da própria humanidade, a destruição dos valores tão arduamente construídos em séculos de luta por um mundo mais fraterno e humano.

É humanamente inaceitável que o Egito tenha negado socorro, fechando sua fronteira com Gaza, em um dos momentos mais dramáticos da vida desse povo, mantendo-a fechada quando eles mais necessitam de acesso a medicamentos, tratamento médico, equipamentos hospitalares, alimentação e demais itens necessário à sua sobrevivência e à reconstrução de seus lares e de suas vidas. Isso significa uma grave violação da Quarta Convenção de Genebra, da qual o Egito foi um dos primeiros países a assinar, em agosto de 1949, ratificando o tratado em 1952. O artigo 59 da Convenção prevê que: ..."Se a totalidade ou parte da população de um território ocupado é inadequadamente assistida pela potência ocupante, outro país deverá estabelecer planos de socorro, em nome da referida, a esta população por todos os meios à sua disposição." O artigo 147 prevê que é uma violação grave da citada Convenção "agir deliberadamente causando grande sofrimento ou lesões ao corpo, a saúde ou mortes."

O cerco israelense-egípcio tem criado os níveis mais terríveis de pobreza, privação e de miséria à população de Gaza, cuja linha da vida são os túneis sob a fronteira com o este país. E agora, para manter Gaza encurralada, o governo de V. Ex.ª , contrariando todas as leis internacionais, ignorando todos os princípios humanitários da Carta das Nações Unidas e os códigos de conduta e da decência, colaborando para o extermínio de um enorme contingente de pessoas, está construindo um muro de aço reforçado na fronteira de Rafah/Gaza que já está sendo chamado de "Muro da Vergonha" porque, de fato, essa iniciativa está causando um enorme constrangimento em todos os povos árabes e despertando uma grande indignação nos povos em todo o mundo.

Ao declarar -se imune às críticas e aos protestos contra esses atos de grande covardia, o governo de V. Ex.ª está deixando sinalizar que os únicos aliados que lhe interessa são aqueles que podem fornecer dinheiro e armas para que este país os ajude a aniquilar parte do povo árabe do qual V. Ex.ª faz parte. Mas ainda é tempo de ouvir as vozes de seu próprio povo que clama pela liberdade de Gaza e de toda a Palestina, recuperando, assim, a dignidade inerente aos dirigentes máximos de todas as nações que, pela posição que ocupam, devem ser um exemplo a ser seguido. Estamos conscientes de que, apesar da dureza de nossas palavras, não estamos ofendendo o seu governo, pois ofendidos estamos todos nós diante de tamanha crueldade para com nossos semelhantes.

Nós, brasileiros, sempre defendemos um tratamento fraterno para com as pessoas oriundas de outros países. Em contrapartida, defendemos a reciprocidade. Por isso, ficamos profundamente indignados com a agressão da polícia egípcia ao companheiro Raimundo Nilo Mendes, nosso representante na Marcha da Liberdade para Gaza. Trata-se de um cidadão brasileiro, um trabalhador e assessor da diretoria do Sindicato dos Petroleiros que, por um dever de consciência, deslocou-se do nosso país para o Egito na tentativa de ajudar a amenizar o sofrimento do povo palestino, acreditando que estava indo para um país amigo e que isso seria fundamental para que chegasse a seu destino e cumprisse sua missão política e humanitária, numa manifestação pacífica. A prisão de um brasileiro e apreensão de seus documentos pela polícia egípcia, sem nenhuma acusação formal e sem que o mesmo tenha praticado nenhum ato ilegal, infringe os princípios do direito civil internacional. Expressamos também nossa indignação com a agressão policial contra os manifestantes de 47 países voluntários da Marcha da Liberdade para Gaza e do comboio de ajuda "Viva Palestina" Sob a lei internacional, nem Israel nem o Egito tinham o direito de parar o comboio de ajuda humanitária " Viva Palestina" e os voluntários da "Marcha Mundial pela Liberdade de Gaza", nem impedirem a passagem livre de suas remessas.

"Como potência ocupante, Israel tem a responsabilidade primária com bem-estar do povo palestino. Dado a negativa de Israel em cumprir com o Direito Internacional, o cumprimento por parte do Egito é ainda mais vital, e nos termos do Direito Internacional DEVE o Egito permitir a passagem e garantir a segurança dos ativistas " declaração do presidente da NLG(National Lawyers Guild* ), David Gespass." Importante assinalar que a "cumplicidade na prática de um crime de guerra ou crime contra a humanidade é um crime sob a lei internacional". - princípio VII do Tribunal de Nuremberg.

Através desta carta, em nome do povo brasileiro, respaldados pela Quarta Convenção de Genebra, solicitamos à V. Ex.ª a liberação da fronteira de Rafah para que os habitantes de Gaza possam ter um mínimo de alívio em seu insuportável sofrimento e que pare imediatamente a construção do Muro de Aço que, como as demais armas israelenses que atingiram e continuam a atingir a população de Gaza, será mais uma via da morte para os palestinos. A paralisação das obras do Muro e a demolição do que foi construído em muito engrandecerão o governo egípcio perante a todos os povos do mundo.

Fonte: http://www.pcb.org.br/hosni_mubarack.htm

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Qual o resultado da Marcha para Gaza?

Nenhum.
.
Tive a oportunidade de estar no Egito nesta mesma época e o que pude perceber foi uma verdadeira demonstração de intolerância por parte do governo.
.
Apesar de toda a resistência imposta pelo governo alguns grupos conseguiram entrar em Gaza. Digamos que o grupo principal (organizado por George Galloway). Outros grupos que se concentraram no centro de Cairo não tiveram a mesma sorte.
.
Se o objetivo da Marcha era protestar contra a violência sofrida por aquele povo, acredito terem alcançado. No entanto, nenhuma outra mobilização foi conquistada. No meu ponto de vista, a marcha para Gaza foi uma manifestação apenas. Uma maneira de dizer: “não concordamos!”, “não aceitamos!”. Contudo, o que de concreto esta manifestação trouxe? Infelizmente nada! Gaza continua invadida, saqueada, destruída, enclausurada.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...